Litterae et una vita et idem.

A Literatura e a Vida são unas!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

natal! despojos da crise


Officium Litteris, deseja a tod@s um bom natal. o próspero ano novo, foi roubado pelo governo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

um nó na alma

Graça Morais
portugal, país sério e circunspeto.
povo de circunstâncias.
inapelavelmente exigente com os outros e os fracos, mas absurdamente libertino para com os fortes e consigo próprio.
desprovido de qualquer sentido de humor, sisudo, macambúzio, ensimesmado, triste... mas com jeitaço para a piadola mais vil, soez e fácil.
vai muito à bola, menos à missa, usa crucifixo na pescoceira e adora ir fazer piqueniques a fátima, até gosta de ir a pé... bebe o seu copito, fuma cada vez menos, pela surrelfa dá umas facadas no matrimónio, completamente servil perante a autoridade.
uns assobiam, outros cantam o fado.
Graça Morais - pietá

a sua melhor qualidade é o lambebotismo. a segunda, a passividade. estou em crer que um português, sentado na cadeira elétrica e com a corrente voltaica a passar por ele, manter-se-á totalmente impassível.
Graça Morais - tempo das cerejas
lamechas, nada assume, tudo aponta. irresponsável por natureza, queixinhas por feitio e saudosista por tradição...
enfim, "o sol da nossa simpatia". uma casinha caiada de branco, pão e vinho sobre a mesa. fundilhos nas calças, dentes pobres. o estômago colado às costas, inda assim, não calado.
Graça Morais - papoilas
é este o meu portugal, o bom povo português...
porra! façam alguma coisa, c'um caneco! nem que seja retirar macacos dos narizes avermelhados e atirá-los uns aos outros.
mas isso já exigiria um incómodo demasiado.
Grito

jaime crespo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Declaração de princípios de Sos Sao Mamede





“A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, (…) visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.”


(art.º 2.º da Constituição da República Portuguesa)







1. A democracia portuguesa está longe de se esgotar nos mecanismos representativos. O encontro e o acordo dos cidadãos para a regulação da vida colectiva, se reduzidos aos momentos em que se elege e se é eleito, tornar-se-iam uma caricatura da democracia, oca, esvaziada, ritual. A participação cívica, a todos os níveis e em todas as escalas, e em ambiente de liberdade e de estímulo, está para a democracia como o sangue para o corpo, a seiva para a planta.

O mundo global, teatro de tantos e por vezes tão antagónicos interesses, exige territórios vivos. A recessão demográfica que há décadas castiga, entre outras, a zona do nordeste alentejano, não poderá ser combatida senão contando com o empenhamento e o envolvimento das populações em todos os assuntos da vida comunitária, potenciando o desenvolvimento da “massa crítica” de que tanto carecem as regiões deprimidas.

É com estes pressupostos que se dá hoje notícia pública da constituição do grupo cívico SOS São Mamede. Grupo plural centrado na defesa e promoção do equilíbrio social e natural deste território, na conservação da sua biodiversidade, na sustentabilidade das suas práticas económicas, sociais e ambientais, na expansão das suas potencialidades paisagísticas, etnográficas e culturais. Grupo cívico – ferramenta ao serviço dos cidadãos para que melhor possam exercer os seus deveres e os seus direitos, no respeito integral pelas competências próprias das autoridades públicas. Grupo aberto e universal – para concretizar a adesão, singular ou colectiva, a este grupo, são suficientes a expressão dessa vontade e o compromisso de honra (que, a ser quebrado em actividades do Grupo, apenas responsabilizará o indivíduo e nunca o Grupo e constituirá motivo de exclusão deste) de abstenção de qualquer acto contrário à lei da República Portuguesa, independentemente de convicções morais, de filiações políticas ou ideológicas, de nacionalidade ou de local de residência.

O mundo somos nós. Nós fazemos o mundo.



2. Há cerca de dois anos que se vem assistindo à implantação, em terrenos no concelho de Marvão, nas freguesias da Beirã, de Santo António das Areias e de Santa Maria, de muitos quilómetros de vedações de rede fina, suportadas por postes metálicos assentes, em alguns locais, em betão, que chegam a atingir 2,45 m, totalmente aderentes aos solos, e encimadas por duas fiadas de arame farpado. O efeito paisagístico, talvez o mais imediato, é devastador: áreas integradas num Parque Natural surgem retalhadas, esquartejadas, através de cercas agressivas que parecem configurar prisões, sem que se vislumbre a utilidade que tais vedações possam ter, no presente, ou possam vir a ter, no futuro. O SOS São Mamede manifesta, face a esta situação, a sua perplexidade e a sua preocupação: perplexidade, pelo desconhecimento dos interesses económicos que podem explicá-la, e preocupação, pelos impactes negativos que terá na fauna local e na sua livre circulação, obviamente condicionada com a implementação destas estruturas. Valores patrimoniais e etnográficos, como calçadas e trilhos antigos, poderão também estar ameaçados, tal como valores económicos: basta pensar nas actividades ligadas ao turismo.

O Parque Natural da Serra de São Mamede, sítio único na Península Ibérica, integra valores naturais e paisagísticos excepcionais.

O SOS São Mamede espera que as diversas autoridades públicas, aquelas que foram directamente escolhidas pelas populações, e as que foram nomeadas pelos representantes eleitos do povo, neste como noutros casos, honrem a nobreza das suas funções, assegurando aos cidadãos toda a informação disponível, o debate público que for necessário, e a transparência nos negócios exigida pela lei e pela ética.

O SOS São Mamede confia nessas autoridades e, na medida das suas possibilidades e das suas capacidades, assumir-se-á como seu interlocutor tendo em vista os esclarecimentos públicos indispensáveis.




sossaomamede@gmail.com

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

a História que nossos netos não vão conhecer...

se nós não lha contarmos...
texto baseado num manual da disciplina de estudo do meio, do 4º ano de escolaridade.


foi no consulado do Doutor Cavaco Silva, que da União Europeia, chegaram grandes quantidades de €uros. os quais ele prontamente distribuiu pelas elites: banqueiros, financeiros, especuladores da bolsa, empreiteiros, empresários, comerciantes, agricultores alguns deles jovens apenas com 69 anos de idade... 



estas pessoas, rodearam-se de luxo e conforto: adquiriram casas na praia e no campo, rodeadas de sumptuosos jardins e piscinas, adquiriram jipes e carros de alta cilindrada, a vida passa a correr e eles tinham pressa. banquetearam-se com generosas refeições no Gambrinus e Tavares Rico. enxarcaram-se do bom uísque escocês e do melhor champanhe francês, no "elefante branco", antes de se regalarem com uma boa garota do Leste ou um jeitoso travesti brasileiro. embarcaram até exóticos destinos de férias, pois a boémia portuguesa causava-lhes muito stresse.



construiram-se autoestradas até ao Japão, pontes várias, o Centro Cultural de Belém, a Expo, estádios de futebol para um campeonato de cinquenta equipas... e até a barragem do Alqueva, vá lá, sejamos comedidos, meia barragem. floresceram campos de golfe e neles, cresceram jogadores como cogumelos. fizeram-se e desfizeram-se Bancos e como num estranho número de magia: desapareceram os €uros.
enquanto isso, o povo, passava dificuldades. trabalhava muito e ganhava pouco. ficava sem emprego e era obrigado a emigrar para as grandes cidades ou para o estrangeiro. algumas mulheres, viram-se obrigadas a exercer o profissionalismo sexual para se sustentarem e suas famílias. abandonaram-se os campos, as pescas e as antigas fábricas. o país não produzia mais nada.



chegou então uma catástrofe, não natural, chamada crise, as elites safaram-se e o povo fodeu-se.




jaime crespo

comparemos com o texto original, do livro "os amiguinhos", estudo do meio, 4º ano, alberta rocha; carla do lago e manuel linhares, texto editores, página 48, ao fundo:





djoaov026



a bem danação

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desespero.2



Ida ao hospital. Santo António dos Capuchos. Consulta de oftalmologia. 4ª feira, cerca das 8:45 horas. Sala cheia. As pessoas estendem-se pelo corredor. no qual, as cadeiras existentes estão todas ocupadas. Escolho uma parede e encolho-me. Sem querer, oiço as conversas dos outros. Dois homens, conhecidos cá de fora, ou das idas às consultas, ainda sonham com o jogo de véspera da seleção nacional de futebol.
"- E o jogo de ontem? Que espetáculo!" "- não fosse o árbitro e tinham sido 7-1. O Ronaldo é um grande jogador. O melhor do mundo, se calhar." "- Ele e o Nani..." "- Sim, esse também. E o Fábio. Eles todos. Ali só há primeira água. Não há ali lixo." "- O Paulo Bento limpou o lixo todo. E é um grande treinador!" "- Sim. O gajo é bestial!" Até passar a besta, penso eu. Viro a atenção para a conversa entre três senhoras idosas que ocupam, lado a lado, desconfortavelmente, as cadeiras.
"- Como é que isto não há-de estar assim? Com estes políticos a roubarem como roubaram durante estes anos todos!..." "- Os políticos e não só. Lá em Torres, muitos pequenos que eu conheço, fazem vidas de grandes! Onde vão eles buscar o dinheiro?" A terceira, com ar de pessoa mais humilde e também mais idosa, retorquiu: "- Ai filhas! Para fezes já chegam as minhas..."
O altifalante anunciou o meu nome e exigiu a minha presença no gabinete 7.
Lá fui para mais uma compressão que terminará com o meu dia em depressão.

Júlio Silva

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

i' m a loser


blog fechado por tempo indeterminado......................



the beatles - i'm a loser

Eu Sou Um Perdedor Eu sou um perdedor, Eu sou um perdedor E eu não sou o que pareço ser.. De todo amor que eu ganhei ou que perdi há um que nunca vou esquecer Ela era a menina em um milhão, meu amigo Eu devia saber que ela ganharia no final Eu sou um perdedor,E eu perdi alguém que estava bem próximo de mim Eu sou um perdedor, E eu não sou o que pareço ser.. Embora eu ria e aja como um palhaço Atrás dessa máscara, eu estou com o rosto triste Minhas lágrimas estão caindo como a chuva cai do céu É por ela ou por mim mesmo que eu choro? Eu sou um perdedor,e eu perdi alguém que estava próximo de mim Eu sou um perdedor, e eu não sou o que pareço ser... O que eu fiz para merecer esse destino? Eu percebi que deixei isso muito tarde E é verdade, o orgulho sempre vem antes de uma queda Estou te dizendo isso para você não perder todas Eu sou um perdedor, e eu perdi alguém que estava próximo de mim, Eu sou um perdedor, e eu não sou o que pareço ser

sábado, 29 de outubro de 2011

Encontro pela retirada do plano da troika/passos

Próximo sábado, 5 de novembro, 15 horas, na Associação 25 de Abril, em Lisboa, encontro aberto promovido pela Comissão pela Proibição dos Despedimentos, para debater a exigência da retirada do acordo troika/passos/sócrates.
O momento, como nos demonstram gregos e troianos, não é de ficar na espetativa. A tua participação é importante. Comparece! Eu vou lá estar...
http://proibicaodosdespedimentos.blogspot.com/

sábado, 8 de outubro de 2011

Luís Miguel Rocha, o bestseller português



Pequeno ensaio de como escrever com prazer e para vender
Análise a partir das obras: “o último papa” e “a mentira sagrada”.
Os tempos em que se discutia o cânone literário à mesa dos cafés e nos botequins de Lisboa, Porto e Coimbra, por vezes terminando essas discussões na rua à bengalada, ou em menor caso, o assunto não era para tanto, na bazófia do duelo, já lá vão mas os puristas continuam por aí, melhor ou pior instalados, tentando impor aos outros o seu gosto leitor.
Não sei se o prazer, prazer em escrever, é motivação primeva a todos os que exercem e cultivam o ofício das letras, sem querer ser arrogante, para mim, esse estado, prazeroso, é a base de todo e qualquer texto literário. E desconfio que o prazer de foder os outros também está por detrás da escrita legislativa… 
Se o comité Nobel recusou o prémio a Raymond Chandler apodando-o de “ser um escritor de policiais”, pior se desculparam a James Joyce, alegando em favor da recusa do prémio, tratar-se de um escritor marcado “pela inovação e pioneirismo na literatura”…
Portanto, o melhor é que cada qual leia o que lhe interessa e deixe as doutas opiniões para os enfatuados das academias.
Determinados assuntos foram deixados de parte, eram teoria da conspiração, alegavam uns, mentiras depravadas, outros. Estou convencido se "a bíblia" fosse escrita hoje, o autor não encontraria editor...
De tal sorte que não sei quando a intriga, o romance, a traição, o crime, etc. que sempre constituíram a farinha, o sal e o fermento da urdidura literária, passaram a merecer o desprezo de todos os cânones.
A um amigo que escrevia razoavelmente bem, perguntei porque não se aventurava a escrever um livro? Respondeu-me que todos os temas estavam esgotados desde os gregos.
Os temas talvez, que não a indomável vontade de escrever, a não ser assim, Shakespeare, que não era grego, seria um perfeito desconhecido.
O que é certo, é que os romances de intriga, traição, crime, foram banalizados e durante tempos apenas se consideravam para o ato literário os assuntos sérios, criando-se assim uma literatura aborrecida de morte.
Em boa hora, outros terão intentado sem obterem contudo sucesso, Umberto Eco, com o seu “nome da rosa” vem recuperar para a liça este género aviltado e abrir nova janela de oportunidades a escritores e leitores sedentos de diversão.
Neste contexto, passado que foi o tsunami “o código Da Vinci”, de Dan Brown, encontramos para melhor, em estilo, escrita, urdidura do romance e sobretudo com uma tecelagem policiaria aceitável, enquanto em Brown essa tessitura, de tão pueril chega a ser imbecilizante, o português Luís Miguel Rocha, oferece-nos obras sólidas, com horas de boa leitura e diversão pegada, provando que se pode escrever com classe e categoria sem que o assunto seja sério, a influência dos discursos de barak Obama na alteração do clima, por exemplo, e ainda assim construir literatura.
E espero, ganhar dinheiro.

Jaime Crespo

sábado, 3 de setembro de 2011

João Paulo Guerra - diz que é uma espécie de democracia

... ou de país.
João Paulo Guerra, um dos resistentes jornalistas de "J", ou seja, daqueles que não usam a profissão como entrega de encomendas e que gostam de investigar fatos e não se inibem de um olhar crítico sobre os acontecimentos que nos rodeiam.
Além de tudo o mais é uma pessoa bem disposta e humorada. Ouvir a sua leitura dos títulos dos jornais, todas as manhãs pelas 8:20, na Antena 1, o que seria um frete para muitos, é na voz de João Paulo Guerra um dos momentos do dia, para quem se dá, ou pode, ao privilégio de o ouvir. E constitui um bom antidepressivo para os maus tempos que vivemos. Termina sempre com um remoque cheio de humor e atingindo o sítio certo, na "mouche". 
Ao ler este conjunto de crónicas, escritas entre outubro de 1999 e dezembro de 2008, ficamos com o olhar e pensamento sobre uma panóplia de acontecimentos ocorridos neste país, alguns tão ridículos improváveis, kafkianos, que provavelmente já esquecemos, mas que a pena do João faz questão em recordar-nos.
Depois, o autor tem um estilo de escrita tão leve e prenhe de humor que o livro se eleva à categoria de antídoto contra qualquer espécie de olvido ou tentativa de cair no ensimesmamento.
E apesar de tudo, de compreendermos como o país e todos nós nos deixámos atolar nesta piscina de merda, por não darmos importância ao rol de pequenas coisas, aqui relembradas, constitui uma autêntica farra a leitura desta obra.

Aqui vos deixo a apresentação do livro disponibilizada pela livraria online "wook":
Jaime Crespo
jpg


João Paulo Guerra entrevistado por Sofia Roque, no Esquerda.net

terça-feira, 26 de julho de 2011

B.D.

The Walking Dead #79

B.D.

The Walking Dead #78

B.D.

The Walking Dead #80

terça-feira, 28 de junho de 2011

Constituição




Esta a nossa Lei fundamental. Essencial. Identitária.
Cada país, o seu povo é, a um nível das mentalidades, de alguma forma moldado de acordo com a Constituição que tem. É a Constituição que lhe confere o ser pertencente a esse povo. É a marca distintiva entre um britânico, um francês, um estado-unidense ou um português.
Deveria ser…
Esta edição que apresento e possuo e quase todos os dias consulto, é repositório de oito, 8, versões desde o 25 de Abril e fala-se já na necessidade de uma nona para que possa contemplar as medidas da troika, numa frase, deixar de ser a Constituição da República Portuguesa, para passar a ser um produto troikado, adulterado, como uma qualquer marca contrafeita e barata de feira.
Assim, não há mentalidade que aguente, não há identidade que resista.
Com séculos de existência, contam-se pelos dedos as revisões, ou emendas, sofridas pelas Constituições britânica, francesa e estado-unidense.
Enfim, mas é nossa, ainda.
É um livro que deveria ser de referência para todos nós, e de reverência também.
A Constituição é um direito, nosso, sabê-la, deve ser um dever, também nosso.
Esta versão, porque traz as oito versões pós 25 de Abril tem por isso uma particularidade e um aliciante extras: a possibilidade de comparar artigo a artigo a sua evolução ou descaracterização, pois com tanta alteração não poderia gerar consensos, o que não é bom nem mau, e assim podemos acompanhar o que para uns tem sido o progresso da nossa Democracia, para outros constitui o declínio da nossa Revolução.
Apesar de tudo, de estar em vias de ser troikada, para não dizer truncada, de tanta vez alterada que não constitui alter-ego de ninguém, não forma por isso mentalidades nem identidades, apesar de tudo, leiam a Constituição! Mantenham-se informados sobre a nossa Lei Fundamental.

domingo, 22 de maio de 2011

Haruki Murakami, underground - uma leitura

Confesso que gosto deste escritor. Por isso volto a uma das suas obras. Ou será mais correcto afirmar que regresso a ele? Mas seja como for neste caso não se trata de mais do mesmo.
Aqui não temos o japonês cosmopolita que ouve o mesmo jazz e a mesma música clássica que nós. Imagine-se, até se delicia com elegantes e redondas chávenas de café cheiroso, cremoso, forte. Mantendo no entanto o quanto baste de áurea exótica para não ser totalmente como nós mas o bastante para o trazer por casa sem dar muito nas vistas e mantendo toda a gracinha.
Murakami, felizmente não é desses nem se dá a muitas concessões. Limita-se a ser como gosta, o que para ele deve ser descansadamente óptimo. Quanto ao resto, humano. Tal como qualquer um anseia ser em vez de salamandra esses bichinhos viscosos.
Escreve bem. Escreve mesmo muito bem. E isso atrai-me deliciosamente. Como às drogas irresistíveis. Fatal como o destino.
Ora neste livro encontramos um Murakami puramente japonês (o que é isso?) longe de mim tal blasfémia que sei que os artistas o são simplesmente. Do mundo.
Mas encontramo-nos com um Japão servido a sangue frio (in cold blood) sem margem para respirar fundo o ar mais quente.
Na sequência dos atentados com gás sarin, no metro de Tóquio, a 20 de Março de 1995, Haruki Murakami entrevista muitas das vítimas. Aquelas que se lhe disponibilizaram. E é esse relato, das vitimas, a seco que este livro contém.
Mais que o Japão ou japoneses do nosso catálogo de preconceitos ocidentais, ou das ideias pré-feitas orientais, é o Japão lugar também ele de seres humanos e de humanidade. É o ser humano em toda a dimensão do seu esplendor, para o bem ou mal, na alegria ou tristeza, na solidariedade e na vileza… que aqui nos é apresentado.
É servido a seco.
E como um martini também deve ser consumido em pequenos golos, lentamente, saboreando, deixando-nos invadir pelo prazer.
Não é uma metáfora é uma radiografia física e psíquica e da alma do Homem.
Mais que mais um grande livro obra de arte é de uma exposição nua da humanidade de que se trata.

P.S.: não sei explicar porquê mas acho que os realizadores das cartas de Iwo Jima leram este livro.

Orhan Pamuk, o meu nome é vermelho - uma leitura


Finalmente, devido a contingências várias, completei a leitura desta obra, quase três anos após ter iniciado a leitura.
Um dos fatores que terá atrasado esta leitura e não displicente foi o fato de ter mais tempo para saborear a intriga, o romance, a trama, as frases, palavra a palavra do manancial escrito.
De fato, para mim, foi uma das melhores obras que me foi dado ler nos últimos tempos.
E sobre ela o que poderei dizer mais que é uma delícia?
Pouco ou nada, tudo o que acrescentar venha só lhe retirará valor…
Poderei dizer que estamos perante uma obra que representará para a Turquia e o Oriente o que representou para o cânone literário ocidental "o nome da rosa" de Umberto Eco. E as afinidades são algumas. Apenas afinidades. Também esta obra coloca em confronto duas visões do mundo: a (pretensa) visão de Deus e o modo de ver profano, humano.
Quando todo o Ocidente europeu vivera o choque renascentista, se humanizou e se prepara já para enfrentar as Luzes, temos uma Istambul, capital do império Otomano, que se prepara para as celebrações do milénio (em anos lunares) da Hégira e cujos pintores se encontram perante o desafio a aceder a uma nova pintura, humana, como se pratica no Ocidente e lhes chegam notícias sobretudo através dos contactos com Veneza, e o apelo da tradição que manda pintar do mesmo modo, a visão de Deus, as coisas mundanas.
É um conflito duro, de levar à morte e perante o qual ninguém pode ter certezas sobre nada.
E é quanto a mim a principal dádiva que este romance fresco nos oferece: a dúvida.
Dúvida de como devemos dirigir a nossa vida, dúvida nas escolhas culturais a fazer, dúvida até perante o objeto do amor e que se ama.
Alegremo-nos, os tempos dos bons romances estão de regresso.

sábado, 21 de maio de 2011

quadra coxa nº 3

(recordando António Aleixo, fazedor de quadras perfeitas)

Sei que pareço um pintelho,
mas há muitos que eu conheço
que não parecendo: o coelho
é aquilo que eu pareço.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

quadra coxa nº 2


"não fiz na vida mais que um pintelho
'd' assim tenho reforma do caralho;
pra vê-la crescer juntei-m' ao coelho
indo  ele  fazer-me o trabalho."

Haruki Murakami, Kafka à beira-mar - uma leitura

Haruki Murakami

(ouvindo Miles Davis "Round About Midnight"; Patti Smith)

Confesso. Gosto da escrita deste gajo, porra! E depois já viram o sainete que não dá andar um mânfio, por entre as carruagens da linha de Sintra, com um livro de 1 Kg, ainda por cima escrito por um tipo japonês!!!
Mas pesporrices à parte Haruki Murakami escreve mesmo bem. Pelo menos, para o meu gosto.
O livro que vendeu muito, por vezes quando assim é, o caso é para desconfiar, mas não, Murakami prova afinal que se podem escrever bons livros que tenham venda.
Nestes casos, autor japonês, mas podia ser de outra proveniência exótica para os ocidentais, costuma gostar-se da cena por isso mesmo, pelo exotismo. Quanto a mim é aqui que Murakami ganha o jogo. Não deixando de ser japonês, nele podemos encontrar o substrato da sua "japoneidade", atinge um invulgar nível de cosmopolitismo que a mim me agrada, demonstrando que a abertura de espírito a outras culturas só nos faz é bem e com isso eleva-se a grau elevado no panteão da escrita.
Não vos vou contar a história pois tirar-vos-ía o interesse pela descoberta e
o desvendar do mistério, passo a passo. Mas sempre vos digo que lá podemos encontrar os sons das melodias que também nos embalam a nós. E não deixa de ser giro ouvir miles, bach, beatles, pela escrita japonesa.
Como nestas coisas convém sempre consultar uma segunda e terceira e quarta, tantas opiniões quantas seja possível, para quem tiver interesse e disponibilidade consulte o seguinte link que não dará o tempo por mal empregue:

provérbio primeiro


"A própria lança contra o próprio escudo"
Era uma vez... 
    Um país cujo povo não era racista. 
    Já imaginaram Pátria assim? Tamanha e com tanta tolerância? 
    Pois é. Até custa a crer em tal coisa. 
    Que era dádiva divina, dizia o povo. 
    O povo de que vos dou notícia, havia, em tempos remotos, sido um dedicado retransmissor da fé divina, a verdadeira, a católica, a apostólica, a romana, que espalhou pelos quatro cantos da Terra, abandonando os seus lares a troco de nada. Apenas aguardando a salvação. Futura. 
    Em compensação, porque nestas coisas da fé tal como na vida em geral as compensações são sempre matéria a ter em linha de conta e nunca devem ser descuradas sob a ameaça de para sempre nos penitenciarmos, o Deus verdadeiro glorificou este povo dotando-o em generosidade e benevolência para com todos os outros povos. 
    Ao fim e ao cabo todos somos filhos de Deus, ou não será assim? 
    Nesta confraria de bondade apenas se levantavam algumas dúvidas e muitos obstáculos para com os Mouros, os Judeus, os Índios (de ambas as índias), os Pretos, os Ciganos, os Imigrantes, qualquer espécie de transumantes ou tendentes ao nomadismo, marca de primitivismo dos povos e como se sabe pouco católica, e os Pobres. 
    O curioso da história é que este povo era um povo de mouros, judeus, índios, pretos, ciganos, imigrantes, emigrantes, apresentava um elevado grau de transumância crónica e ancestrais tendências nómadas, por detrás da fachada católica habitavam mais as seculares tradições pagãs, e mais, era sobre todas as coisas um povo essencialmente pobre. 
    Pobres de espírito! 
    Como acabou a história? Bolas, isso já vocês deviam saber! 
    Felizmente ao contrário do afirmado por doutas sapiências, a História ainda não acabou, nem mostra sinais de envelhecimento. 
    Mas caminha para um final triste: AUTODESTRUIÇÃO! 

uma quadra solta... e coxa


passar de bestial a besta
aqui neste país:
vai do instante da vespa
ao "ai!" que ele diz..

terça-feira, 10 de maio de 2011

1º de Maio anticapitalista em Setúbal

Não negociamos a escravidão
a vida é nossa não é do patrão

o povo unido
não precisa de partido


No dia 9 de Maio de 2011 02:05, Terra Livre <terralivre.setubal@gmail.com> escreveu:
Aqui está o vídeo que durante a última semana foi recolhido e editado. Utilizaram-se as caixas de texto para cobrir as caras, visto que estas durante a manifestação estavam descobertas e porque sabemos como funciona o aparelho repressivo.
Não disparámos armas de fogo, não fomos em formação “bloco-negro”, não causamos distúrbios, não partimos vidros, não destruímos carros… nem nenhum dos outros delírios. Houve sim fogos de artifício e frases pintadas pelo caminho.
No final do vídeo é óbvio, pela posição da câmara, que a polícia adoptou uma postura ofensiva para acabar violentamente com uma manifestação que já tinha acabado. É criada uma ratoeira para a qual somos atraídos e a partir daqui a polícia agrediu todos os que encontrou pela frente.
Ao serem posicionados agentes da polícia numa parte do Largo e depois de ser feita a comunicação, no momento em que chega a carrinha da BIR pode então começar o ataque planeado contra os que permaneciam por ali. Durante a parte em que a câmara corre na direcção da carrinha da BIR já decorria a agressão por parte da polícia (que se pode ver entre dois carros a espancar manifestantes que estão no chão) e ouvem-se os primeiros disparos para afastar os manifestantes que só nesta altura se insurgem contra a atitude policial, não a sua presença!
Faltam-nos imagens desse ângulo e convidamos aqueles que eventualmente as terão a contribuir para o arquivo que se criou para cobrir as consequências desta manifestação.
O que se segue é muito incompleto, as repetidas cargas, os disparos, os abusos, as humilhações, os espancamentos e as caçadas da polícia que levaram muitos dos manifestantes a corridas contínuas até ao outro lado da cidade não estão filmadas.
Mais informações e contacto em:
www.terralivre.net
terralivre.setubal@gmail.com
links: http://terralivre.eu/blog/?p=98
http://www.youtube.com/watch?v=ngMyjZVOG4U  

quinta-feira, 21 de abril de 2011

José Luis Peixoto, livro, uma odisseia moderna




 
Tal como o autor, também não gosto de ler novidades, isto é, livros que estão na moda, aqueles que vemos toda a gente no comboio a lê-los, ou a fingir que lê.
Gosto de os deixar pousar, que a fama passe e só então me dedicar a saboreá-los por aquilo que realmente são, significam e valem.
Talvez por isso as minhas leituras ainda andem pelo Camilo e Eça. Com alguns Saramagos e lobo Antunes à mistura. 
De tal sorte ser este o primeiro livro de José Luís Peixoto que leio e empurrado para ele por um golpe publicitário da livraria Wook.
Mas em boa hora me deixei levar até ele porque francamente é do melhor que tenho lido de romancistas portugueses.
Desde logo, este "livro", não é um livro, são vários livros formando um só, o livro, a epopeia de quão custoso é ser português.


 
  1. O livro do amor e da paixão – tal como outros autores, também Peixoto cria e dá vida ao seu par amoroso, os inesquecíveis Ilídio e Adelaide, tal como os verdadeiros pares amorosos, este, igualmente é um amor infeliz. Ilídio filho sem pai e abandonado pela mãe, vem a ser pai sem filho e esposo sem esposa. Adelaide de uma tão grande família como a pobreza que de tão grande não tem lugar para ela, acaba por viver em família tão só como na sua origem. O resto faz o destino e as peripécias da vida, vida inexorável que não permite aos amantes mais que um breve momento de encontro. Par amoroso que confirma a regra "todos os amores felizes são felizes da mesma maneira, os amores infelizes são infelizes no seu modo único e original".
  2. O livro da epopeia da emigração portuguesa – uns em busca de melhores condições de vida, outros para fugir da guerra colonial, alguns correndo atrás da ilusão do amor. Madrasta terra esta que não dá aos seus filhos nem pão, nem paz, nem amor…
  3. O livro do Alentejo "pró fundo" – a vida dificultosa na pequena vilória do Alentejo, julgando pelos traços de escrita de José Luis Peixoto, as casas caiadas, a luz natural, os sobreiros… não andará muito longe para onde hoje é empurrada a vida da mesma vila. Alentejo interior de onde quem manda teima em esquecer e votar ao abandono. Mesmo a retirar o que já havia sido conquistado. É o Alentejo antigo que se mistura com o Alentejo atual em o livro.
  4. O livro da amizade e solidariedade – os laços que ligam a bondade do pedreiro Josué, "pai" necessário de Ilídio, a este e ambos ao infeliz Galopim e até mesmo ao gabarolas Cosme, vão para lá de uma simples amizade, entram no campo da solidariedade, daqueles que dão a vida pela do amigo.
  5. Livro do abandono e da tristeza – há qualquer coisa nas personagens de livro que as faz tristes e dessa tristeza nasce um sentimento de abandono, mais que de solidão, são personagens ensimesmadas, trilhando a sua vida de uma forma de tal modo desamparado que as faz para ali estarem, abandonadas.


Muito podia especular mais e caso quisesse encontrar outros livros no "livro", mas não vale a pena entrar mais por essa via.
Numa navegação (escrita) à vista, José Luis Peixoto ruma o seu barco entre os colossos Lobo Antunes e Saramago, quanto a mim mais rasante a Saramago, encontra, no entanto, o seu próprio mar criativo. E é um mar novo, de águas límpidas, frescas, puras e jovens, aquele que José Luis Peixoto nos oferece ao desfrute.
Livro, uma obra com lugar já marcado na Literatura portuguesa.


 
jaime crespo

Rui Cardoso Martins – a odisseia da expiação - Prémio romance e novela da Sociedade Portuguesa de Escritores


 



 
Ora cá temos o segundo romance de Rui Cardoso Martins, o qual constitui quer do ponto de vista meramente lúdico do leitor, quer ainda como objeto artístico passível de uma análise crítica mais exaustiva, pois ao adicionar-se ao seu primeiro romance, o gostoso "e se eu gostasse muito de morrer", fornece-nos já um naipe interessante das linhas de força e dos rumos estéticos que Rui Martins pretende trilhar.
Tenho assim matéria quanto baste, para uma análise, ainda que ligeira, sobre os passos formais, ideológicos e fundacionais da estética que nos é servida pelo Rui.
Neste novo livro, Rui Martins volta a brindar-nos com um muito original Ulisses que ao longo do dia vai percorrendo a sua Odisseia através de pequenas peripécias e muito sentido de humor.
Se no primeiro romance, essa Odisseia se vai desenvolvendo sob o pano de fundo que lhe dá o cenário e ambiência, através da cidade e sociedade de Portalegre, uma cidade exótica alto-alentejana, entre serra e planície, brindada por belos dias luminosos intercalados por outros cinzentos e chuvosos. Cidade de grandes contrastes: quentíssima de verão friíssima de inverno. Agora, neste seu "deixem passar o homem invisível", o cenário é transportado para a luminosa mas telúrica e tempestuosa Lisboa, apesar de tudo, cidade mediterrânica.
Mas se no primeiro romance temos um Ulisses que passeia a sua juventude pelo cinzentismo portalegrense, neste, Ulisses é um cego, apenas vê uma estreita linha de luz, de meia-idade que se move pela luminosidade e espertalhice lisboeta.
Definidas as normas formais, debrucemo-nos um pouco sobre a filiação escritural do autor. Apesar do apadrinhamento (no bom sentido) que foi concedido por Lobo Antunes, é mais com a escrita de Dinis Machado do "molero" e com Mário Zambujal "dos bons malandros" que eu identifico as influências e afinidades literárias da escrita de Rui Martins numa linha de escrita sempre prenhe de ironia e que vem de longa tradição na escrita portuguesa.
Toda esta parafernália de instrumentos formais vão, em minha opinião, permitir a que a criatividade do autor se revele e expanda através do que chamo "estética da expiação", nestas odisseias protagonizadas pelo Ulisses de Martins, o leitor fica sempre com a inquietação de que o Rui, através da sua escrita anda em busca da expiar algo que é ao fim e ao cabo a pena que qualquer humano paga pela sua existência.

 


 


 
Rui Cardoso Martins, deixa-me com água na boca para o que escreverá a seguir, pois nestes dois romances sentimos um escritor em crescimento a cada parágrafo. Como o autor é possuidor de uma tremenda fluidez de escrita e de um domínio técnico exuberante faz-nos cair, leitores, no engodo de pensarmos que estamos perante uma obra fácil e linear, coisa que está longe de acontecer ou está presente apenas como aparência, pois por detrás da aparente facilidade encontramos uma obra cheia de complexidades e surpresas, tal como complexas e surpreendentes são as nossas vidas.
Com estas duas obras, Rui Martins constrói um mosaico, tipo tabuleiro de xadrez com quadradinhos a preto e branco, obrigando-nos a descobrir a multiplicidade de possíveis jogadas.
Se no primeiro romance, Ulisses desenvolve e expia a sua existência caminhando do cinzento de Portalegre até se encerrar numa escura cova do cemitério da cidade, no novo romance, Ulisses perante a luminosidade de Lisboa é ironicamente cego e acompanhado por uma infeliz criança vai fazer o seu percurso através do esgoto da cidade até desembocar no lodaçal do Tejo. Diria que estará a expiar a ousadia anterior de ter desafiado o destino ao encerrar-se vivo num local destinado a guardar os mortos. Atenção que estou apenas a tratar de uma observação crítica à obra de Rui Martins, pois os romances são independentes bem como as personagens o são diversas, eu é que estou a coser linhas entre elas.
Tal como no primeiro romance, em que Ulisses se encerra na cova com uma mina na mão, também agora o final é apocalíptico, o Ulisses cego e o menino infeliz vão desembocar no lodo do Tejo mas após um novo terramoto em Lisboa e ali ficam abandonados à espera do tsunami que se adivinha.
Também aqui Rui Martins não concretiza o desfecho final preferindo deixá-lo em aberto à interpretação do leitor, como se todos tenhamos uma desgraça suspensa sobre as nossas cabeças mas esteja nas nossas mãos evitá-la, por isso, apesar de tudo e depois de percorrida a via-sacra o autor ainda nos deixa a réstia de esperança (a réstia de luz que o advogado cego ainda consegue ver?) de que a remição é possível e a salvação (ou ressureição?) inerente a ela.

 


 
Apesar de umas vidas desgraçadas, ainda assim, Rui Martins deixa-nos respirar um pouco a utopia esperançosa da salvação. Ou melhor, deixa o destino de cada um nas suas próprias mãos e meus senhores e minhas senhoras façam o favor de se servirem.

 

 
Jaime Crespo

 

 

Rui Cardoso Martins, e se eu gostasse muito de morrer, a minha leitura(ouvindo lightnin' hopkins greatest hits…)


 

reflexões acima do joelho motivadas pela leitura do livro "e se eu gostasse muito de morrer" de rui cardoso martins


 


 


 

portalegre. cidade que não passou de aldeia grande. terra de lagóias. abençoadas margens de baco.

a jornalista que acompanhou o escritor à cidade chamou-lhe "twin peaks". desta nunca me lembrei eu.

mas há anos, quando ainda por lá escorregava na calçada inclinada da rua do comércio, achei-a parecida à cidadezinha que servia de fundo a um policial francês e que tinha o sugestivo título de "balada da cidade triste", de pierre simiac (les femmes blafardes, no original).

curiosamente foi no cinema que encontrei a denominação perfeita para a minha aldeia natal, tolosa, no distrito de portalegre, nada mais nada menos que "dogville".

pois claro, já estão mesmo a ver os ambientes, twin peaks, cidade triste, dogville… é uma 5ª dimensão escondida ali num cantinho de portugal.


 

(a música passou para os ladysmith blackmambazo)


 


 

apesar de termos pisado as mesmas pedras da calçada e provavelmente petiscado nas mesmas mesas das sedutoras tascas marchão, david, escondidinho ou marmelo; bebido uns canecos no joia, painel; cafézadas no alentejano, facha, central ou tarro (eu ainda as sorvi no finado plátano, hoje banco ou seguradora ou as duas coisas).

mesmo encontrando velhos conhecidos, tininho, matcha, pelo livro afora, nunca me cruzei com o autor. o pai sim, foi meu professor.


habituei-me a ler e a gostar de ler rui martins nas crónicas "levante-se o réu", primeiro através da internet, quando estava emigrado, depois sentindo bem o cheiro da tinta e o deslizar das páginas, sedosas, sedentas, entre os dedos.

vai ser com tristeza que hoje ao tomar da bica matinal não a acompanharei com o levante-se o réu de um lado e a crónica do pulido valente do outro. o meu pequeno almoço ficará mais só. mas temos que mudar e ir à vida senão paramos e ficamos com vontade de morrer. muita. não é rui?


 

(muda o disco para carlos paredes – verdes anos)


 

o que poderei dizer do livro? que gostei, transmite na perfeição as vivências e ambientes da portalegre que conheci e me habituei a gostar (afinal é a minha primeira cidade). vidas e ambientes a adivinhar o drama e ele acaba sempre por chegar, por vezes da maneira mais cruel, inesperada e dolorosa.

por isso no alentejo gostamos muito de morrer.

felizmente muito menos de matar ainda que às vezes…


 

o livro é uma diversão pegada de leitura. dá prazer ler um livro assim, bem construído e bem escrito. vai de carrinho até ao episódio do bispo, aí embatuca um poucochinho, trava, haverá algumas contas mal ajustadas entre o autor e a igreja ou algum seu representante terreno? não é da minha conta apenas noto alguma quebra na fluidez da história.

ou seria eu que já estava cansado por ler de seguida sem parar pela tarde, noite, madrugada até manhã… entre as gotas grossas de chuva lá fora.



 


 


 


 


 


 


 


 

o livro fala da morte mas é afinal uma autópsia, escrupulosa, muito bem feita, como aquelas que vemos nos filmes tipo csi em que não escapa nada, ao modo de ser portalegrense.

recomendo vivamente a leitura do livro. eu vou reler para ver se na pressa e extasiamento da primeira leitura não deixei escapar mesmo nada.


 

Jaime crespo

Orhan Pamuk, vermelho, uma leitura


Finalmente, devido a contingências várias, completei a leitura desta obra, quase três anos após ter iniciado a leitura.

Um dos fatores que terá atrasado esta leitura e não displicente foi o fato de ter mais tempo para saborear a intriga, o romance, a trama, as frases, palavra a palavra do manancial escrito.

De fato, para mim, foi uma das melhores obras que me foi dado ler nos últimos tempos.

E sobre ela o que poderei dizer mais que é uma delícia?

Pouco ou nada, tudo o que acrescentar venha só lhe retirará valor…

Poderei dizer que estamos perante uma obra que representará para a Turquia e o Oriente o que representou para o cânone literário ocidental "o nome da rosa" de Umberto Eco. E as afinidades são algumas. Apenas afinidades. Também esta obra coloca em confronto duas visões do mundo: a (pretensa) visão de Deus e o modo de ver profano, humano.

Quando todo o Ocidente europeu vivera o choque renascentista, se humanizou e se prepara já para enfrentar as Luzes, temos uma Istambul, capital do império Otomano, que se prepara para as celebrações do milénio (em anos lunares) da Hégira e cujos pintores se encontram perante o desafio a aceder a uma nova pintura, humana, como se pratica no Ocidente e lhes chegam notícias sobretudo através dos contactos com Veneza, e o apelo da tradição que manda pintar do mesmo modo, a visão de Deus, as coisas mundanas.

É um conflito duro, de levar à morte e perante o qual ninguém pode ter certezas sobre nada.

E é quanto a mim a principal dádiva que este romance fresco nos oferece: a dúvida.

Dúvida de como devemos dirigir a nossa vida, dúvida nas escolhas culturais a fazer, dúvida até perante o objeto do amor e que se ama.

Alegremo-nos, os tempos dos bons romances estão de regresso.

Marco Laureano, a chave, a minha visão


 


Dissertação, breve, sobre cinema, tendo à mão "A Chave"

Há três géneros cinematográficos que não gosto!

A saber:

  1. Gangster's e mafiosos. Não gosto destes filmes porque me perco ao fim de meia dúzia de minutos. São tantos tiros, tantas mortes que a cenas tantas já não sei quem é pelo Al Capone ou quem dispara em favor de Meyer Lansky. Muito menos pela polícia, porque estes são por todos.

    Mais uma coisa que me aborrece, é que nesses tempos gloriosos dos filmes série B, os gangster's não passavam de testas de ferro a dar cobertura aos negócios de polícias, procuradores, juízes, políticos, gentes das finanças.

    Hoje é precisamente o contrário.

     
     

  2. Os western's tipo John Wayne de lencinho ao pescoço, armado em mariconço, atirando a torto e a direito contra os peles vermelhas, umas gentes cabeludas, com penas de peru ou pavão nas cabeças, parecidos com grupos de junkies dirigindo-se a wodstock mas sendo massacrados pelo tea party direitista republicano intolerante.

    Aqui, o final é de previsibilidade absoluta, os tipos amaricados de lencinho ao pescoço ganham sempre por uma abada e os pobres peles vermelhas nem no cinema tem a sua hipótese de vitória.


     

  3. Finalmente, o terceiro género de filme que suporto a custo, é o terror. É sangueira (tomatada) a mais. Violência indiscriminada e sempre praticada por pobres patetas atrasados mentais, pretos, estrangeiros em geral, deficientes, resumindo, por alguém portador de algo que o torna diferente do comum e do que é aceite.

    Também aqui o mistério é facilmente resolúvel, o culpado é sempre a ovelha negra que se destaca de dentro do branco rebanho.


     

    Depois há filmes que nem sim nem não, nem sei porquê.


     

    Também não descortinando os porquês, há filmes dos quais gosto. Gosto alguma coisa, gosto um pouco mais ou menos ou gosto bastante.

    Mas não sei porquê. Pode ser por tudo ou por nada. Ou o nada que é tudo, do Pessoa, ou do Campos, ou do Caeiro. Que chato era este vários gajos.

    Nesta categoria dos remediados que eu gosto, encontro a curta do Marco Laureano "A Chave".

    Depois de ver o filme, vi o óbvio: todos quando nascemos trazemos dentro de nós uma chave, a chave que nos permite ou não, abrir as portas da existência. E é esse motivo que nos mantém vivos, pois caso contrário, à primeira oportunidade matávamo-nos Isto é, se o sentido da vida fosse apenas a marcha para a morte. Andaríamos todos, o mais depressa possível, a caminho do mar para descobrirmos que não temos guelras nem barbatanas como os peixes, ou em alternativa, atirámo-nos das janelas, dos nossos apartamentos altos de citadinos apenas para descobrirmos que não somos dotados de asas como as aves.

    A melhor maneira de admirar "A Chave" é pegar numa lata de coca-cola, daquela a sério cheia de calorias e açúcar como o caralho, um cachorro daqueles com salsichas enormes e grossas, a vazar mostarda e na outra mão um cartucho de pipocas. Pode-se equilibrar a lata num dos joelhos, and let's go to the trailer.

    "A Chave", ouve-se o grito convicto do realizador "ação!", bem, a convicção é mais uma questão de fé. Mas também, como se sabe, tudo isto, nós, o governo da nação e até, imagine-se o filme, tudo, está dependente da termodinâmica dos fluidos.

    Uma vassoura, o quanto baste à mão, aconselha-se vivamente, não iremos virar Mestre com a sua Marguerita. O que já não desejo nem aos piores inimigos é que se apaixonem pela Lolita, nos dias que correm sujeitavam-se a julgamento por pedofilia.

    Não queria falar de sexo, mas já que a conversa / escrita, me trouxe para aqui, não poderia deixar de usar esta chave e abrir a porta.

    Nunca conheci nenhum realizador, pessoalmente falando, e tenho esta chave por desvendar, isto que por aí se ouve de que os realizadores papam as atrizes, pelo menos as melhores é verdade? A sê-lo, eh pá. Isso é que é cá uma ganda chave. Eu, por mim, contentava-me com as figuras secundárias, mesmo algo feias, grandes e gordas.

    A cada qual a sua psicose, ou com a unha coça a micose.

    Já nos créditos, somos brindados com uma fantástica chave musical para fechar com chave d'ouro.

    Mas entre o grito de ação e a espetacular música final, há uma chave para achar, para desvendar, ou para utilizar.

    Essa é a tal chave que cada ser humano traz em si e tem que descobrir. Não só a chave mas como e onde utilizá-la: no amor, na vida ou na morte, no ramerrame dos dias comuns, numa inesperada e insólita onda de genialidade criativa.

    Que o cinema dê a cada um a sua chave.


     

Jaime Crespo