Litterae et una vita et idem.

A Literatura e a Vida são unas!

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Da Interpretação do Mundo

Gostava de ter uma ideologia com a qual interpretasse os problemas do mundo, ou então o apoio numa falaciosa leitura, Bíblia, Alcorão, Buda, etc. que fizesse concordar o meu pensamento com as medidas que o mundo me apresenta.
Felizmente não tenho nada.
Tenho apenas incógnitas que o mundo me traz diari
amente, eternamente.
e não há forma, método nem solução únicas...
jaime crespo

EXCITAÇÃO

vida, há só uma; mortes, há muitas...
jaime crespo

naquela parede


naquela parede

naquela parede tosca suja e velha
ao lado de onde passam
os comboios
do lado de cá passam
aos milhares pessoas
apressadas e ansiosas.
como uma tela
velha abandonada e gasta
de uma tristeza bela.
anónima e tremente
mão
escreveu nela
em má caligrafia
de letras maiúsculas
e redondas.
a preto escorrido
o ferrete
que marca
todos os corações
devastados:

“empresta-me um abraço”.

Jaime crespo

sábado, 19 de julho de 2014

ISTO DE VIVER É FODIDO

ISTO DE VIVER É FODIDO

num destes dias, acordo,
tenho cinquenta anos, e uma vida
cavalgando-me as costas.
estou cansado, muito cansado,
um velho de setenta anos desdentado,
usando fralda.

desvanecem da juventude todos os sonhos,
radicalmente esfumados num último cigarro.

vou à janela
e corro os olhos pela longitude,
as luzes retiram-me os sentidos e os sentimentos
que nunca retive
e aquela que nunca tive, juventude

homem vertical,
procuro um plano horizontal.

e é então que encomendo a todos os antigos deuses: 

por favor, não me permitem cinquenta dias mais.


sábado, 10 de maio de 2014

não se devia morrer assim!


não se devia morrer assim!

a morte é mais morte quando nos toca perto, quando nos leva alguém que amávamos, gostávamos, um estimado amigo...
nem me refiro ao sofrimento e dor que muitos arrastam anos, até ao fatal momento. muito menos à mágoa e saudade que afeta os que por cá vão permanecendo.
reporto-me à injustiça que é o estar vivo num momento, para logo no seguinte falecer. assim, sem mais nem o quê.
todos devíamos ter o tempo necessário para nos despedirmos dos que amamos, gostamos, somos amigos.
assim, do jeito que se morre, sinto-me defraudado. sei que todas as despedidas são penosas. a morte ainda mais pois é a derradeira.
mas ainda assim, prefiro a dor da despedida que carregar o pesado fardo do que ficou por dizer no último adeus.
e tanto que deixámos por dizer-nos, querido amigo Júlio...
tantos conselhos que deixaste de me dar, tanta história que deixei de te contar, tantas recordações de macau que ficaram no esquecimento.
sei, em portalegre, que tinhas a fama de estroina. quão enganados os que pensaram assim...
recordo, já com saudade, que trouxeste de macau, a minha filha, então com 3 anos de idade, até tolosa para que os avós conhecessem a neta... não é para qualquer um. nem o ato que praticaste, nem a confiança, depositada em ti, do único bem precioso que possuo. só por isso, já estarias guardado num local bem central do meu coração, até que ele se engasgue num último suspiro.
mas fomos muito mais que isso.
lamento este adeus de um lado só.
assim que a morte, apenas salda as dívidas para com os nossos inimigos. 




com os amigos, o saldo continua em aberto.
até sempre, comandante!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

o vinil está de volta


hellas! cravo vermelho ao peito e bandeiras desfraldadas: 25 de abril em minha casa (o magano de um sapato pregou-me a partida de me fazer uma ferida no pé e mal conseguia andar, pelo que nem pude ir ao carmo nem à trindade), hoje / ontem: há coisa de cinco anos, pela internet, adquiri um gira-discos que me custou cerca de 120 euros e veio da alemanha, um ion, passe a publicidade. o intuito era passar os velhinhos vinis que guardei com cuidado e estima para o formato mp3 e assim poder ouvir todas aquelas velhas músicas. mas o gira-discos também se pode ligar ao amplificador de um sistema de som, vulgo aparelhagem. para entreter o tempo, resolvi, hoje, experimentar a ligá-lo á aparelhagem e maravilha. eu nsempre fui e sou defensor e utilizador, na medida que a carteira o permite, das novas tecnologias e reconheço que nos facilitaram imenso a vida. por outro lado, prazeres houve que perdemos.
eu não ouvia o som de um vinil há quase trinta anos, daí o lançar-me à tarefa com os ouvidos limpos.
foi uma sinfonia de emoções. o tirar o disco da capa e do papel ou plástico protetor, limpá-lo, colocá-lo no prato, ver o disco a girar, deixar cair a agulha suavemente no disco e depois o mistério da maravilha que é aquele som em que até os ruídos soam bem.

a minha filha, com vinte e dois anos, nunca tinha ouvido um vinil a ser tocado. ficou admirada com a qualidade do som e a saber que o 'pai já cresceu depois da era da pedra lascada, apesar da aparência.
só gostava de ver agora, a cara do grunho, dono de um bar onde entrei uma vez e que tinha resolvido colar os vinis à parede como uma boa obra de merda de decoração. ainda por cima, agora que o vinil está de volta e os discos são mais caros que os cd's. toma, embrulha e vai buscar.
alvíssaras para quem adivinhar qual o primeiro disco que ouvi?
não, não foi a grândola, foi a "ópera do malandro", de Chico buarque.
por sinal, um disco que me diz muito. em dezembro de 1989 estava em macau há três meses e só conhecia lá um casal amigo. estava quase só e longe da família. o casal Isabel e Manuel Cavalheiro convidaram-me para a consoada em sua casa, em coloane e como prenda de natal ofereceram-me esse disco.
como as coisas evoluíram vertiginosamente para o cd, não tinha ainda tido oportunidade para ouvir este disco.
estou maravilhado.
bem hajam Cavalheiros pela gentileza de há vinte e cinco anos.
o vinil está de regresso.
25 de abril sempre.