Litterae et una vita et idem.

A Literatura e a Vida são unas!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Declaração de princípios de Sos Sao Mamede





“A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, (…) visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.”


(art.º 2.º da Constituição da República Portuguesa)







1. A democracia portuguesa está longe de se esgotar nos mecanismos representativos. O encontro e o acordo dos cidadãos para a regulação da vida colectiva, se reduzidos aos momentos em que se elege e se é eleito, tornar-se-iam uma caricatura da democracia, oca, esvaziada, ritual. A participação cívica, a todos os níveis e em todas as escalas, e em ambiente de liberdade e de estímulo, está para a democracia como o sangue para o corpo, a seiva para a planta.

O mundo global, teatro de tantos e por vezes tão antagónicos interesses, exige territórios vivos. A recessão demográfica que há décadas castiga, entre outras, a zona do nordeste alentejano, não poderá ser combatida senão contando com o empenhamento e o envolvimento das populações em todos os assuntos da vida comunitária, potenciando o desenvolvimento da “massa crítica” de que tanto carecem as regiões deprimidas.

É com estes pressupostos que se dá hoje notícia pública da constituição do grupo cívico SOS São Mamede. Grupo plural centrado na defesa e promoção do equilíbrio social e natural deste território, na conservação da sua biodiversidade, na sustentabilidade das suas práticas económicas, sociais e ambientais, na expansão das suas potencialidades paisagísticas, etnográficas e culturais. Grupo cívico – ferramenta ao serviço dos cidadãos para que melhor possam exercer os seus deveres e os seus direitos, no respeito integral pelas competências próprias das autoridades públicas. Grupo aberto e universal – para concretizar a adesão, singular ou colectiva, a este grupo, são suficientes a expressão dessa vontade e o compromisso de honra (que, a ser quebrado em actividades do Grupo, apenas responsabilizará o indivíduo e nunca o Grupo e constituirá motivo de exclusão deste) de abstenção de qualquer acto contrário à lei da República Portuguesa, independentemente de convicções morais, de filiações políticas ou ideológicas, de nacionalidade ou de local de residência.

O mundo somos nós. Nós fazemos o mundo.



2. Há cerca de dois anos que se vem assistindo à implantação, em terrenos no concelho de Marvão, nas freguesias da Beirã, de Santo António das Areias e de Santa Maria, de muitos quilómetros de vedações de rede fina, suportadas por postes metálicos assentes, em alguns locais, em betão, que chegam a atingir 2,45 m, totalmente aderentes aos solos, e encimadas por duas fiadas de arame farpado. O efeito paisagístico, talvez o mais imediato, é devastador: áreas integradas num Parque Natural surgem retalhadas, esquartejadas, através de cercas agressivas que parecem configurar prisões, sem que se vislumbre a utilidade que tais vedações possam ter, no presente, ou possam vir a ter, no futuro. O SOS São Mamede manifesta, face a esta situação, a sua perplexidade e a sua preocupação: perplexidade, pelo desconhecimento dos interesses económicos que podem explicá-la, e preocupação, pelos impactes negativos que terá na fauna local e na sua livre circulação, obviamente condicionada com a implementação destas estruturas. Valores patrimoniais e etnográficos, como calçadas e trilhos antigos, poderão também estar ameaçados, tal como valores económicos: basta pensar nas actividades ligadas ao turismo.

O Parque Natural da Serra de São Mamede, sítio único na Península Ibérica, integra valores naturais e paisagísticos excepcionais.

O SOS São Mamede espera que as diversas autoridades públicas, aquelas que foram directamente escolhidas pelas populações, e as que foram nomeadas pelos representantes eleitos do povo, neste como noutros casos, honrem a nobreza das suas funções, assegurando aos cidadãos toda a informação disponível, o debate público que for necessário, e a transparência nos negócios exigida pela lei e pela ética.

O SOS São Mamede confia nessas autoridades e, na medida das suas possibilidades e das suas capacidades, assumir-se-á como seu interlocutor tendo em vista os esclarecimentos públicos indispensáveis.




sossaomamede@gmail.com

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

a História que nossos netos não vão conhecer...

se nós não lha contarmos...
texto baseado num manual da disciplina de estudo do meio, do 4º ano de escolaridade.


foi no consulado do Doutor Cavaco Silva, que da União Europeia, chegaram grandes quantidades de €uros. os quais ele prontamente distribuiu pelas elites: banqueiros, financeiros, especuladores da bolsa, empreiteiros, empresários, comerciantes, agricultores alguns deles jovens apenas com 69 anos de idade... 



estas pessoas, rodearam-se de luxo e conforto: adquiriram casas na praia e no campo, rodeadas de sumptuosos jardins e piscinas, adquiriram jipes e carros de alta cilindrada, a vida passa a correr e eles tinham pressa. banquetearam-se com generosas refeições no Gambrinus e Tavares Rico. enxarcaram-se do bom uísque escocês e do melhor champanhe francês, no "elefante branco", antes de se regalarem com uma boa garota do Leste ou um jeitoso travesti brasileiro. embarcaram até exóticos destinos de férias, pois a boémia portuguesa causava-lhes muito stresse.



construiram-se autoestradas até ao Japão, pontes várias, o Centro Cultural de Belém, a Expo, estádios de futebol para um campeonato de cinquenta equipas... e até a barragem do Alqueva, vá lá, sejamos comedidos, meia barragem. floresceram campos de golfe e neles, cresceram jogadores como cogumelos. fizeram-se e desfizeram-se Bancos e como num estranho número de magia: desapareceram os €uros.
enquanto isso, o povo, passava dificuldades. trabalhava muito e ganhava pouco. ficava sem emprego e era obrigado a emigrar para as grandes cidades ou para o estrangeiro. algumas mulheres, viram-se obrigadas a exercer o profissionalismo sexual para se sustentarem e suas famílias. abandonaram-se os campos, as pescas e as antigas fábricas. o país não produzia mais nada.



chegou então uma catástrofe, não natural, chamada crise, as elites safaram-se e o povo fodeu-se.




jaime crespo

comparemos com o texto original, do livro "os amiguinhos", estudo do meio, 4º ano, alberta rocha; carla do lago e manuel linhares, texto editores, página 48, ao fundo:





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a bem danação

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desespero.2



Ida ao hospital. Santo António dos Capuchos. Consulta de oftalmologia. 4ª feira, cerca das 8:45 horas. Sala cheia. As pessoas estendem-se pelo corredor. no qual, as cadeiras existentes estão todas ocupadas. Escolho uma parede e encolho-me. Sem querer, oiço as conversas dos outros. Dois homens, conhecidos cá de fora, ou das idas às consultas, ainda sonham com o jogo de véspera da seleção nacional de futebol.
"- E o jogo de ontem? Que espetáculo!" "- não fosse o árbitro e tinham sido 7-1. O Ronaldo é um grande jogador. O melhor do mundo, se calhar." "- Ele e o Nani..." "- Sim, esse também. E o Fábio. Eles todos. Ali só há primeira água. Não há ali lixo." "- O Paulo Bento limpou o lixo todo. E é um grande treinador!" "- Sim. O gajo é bestial!" Até passar a besta, penso eu. Viro a atenção para a conversa entre três senhoras idosas que ocupam, lado a lado, desconfortavelmente, as cadeiras.
"- Como é que isto não há-de estar assim? Com estes políticos a roubarem como roubaram durante estes anos todos!..." "- Os políticos e não só. Lá em Torres, muitos pequenos que eu conheço, fazem vidas de grandes! Onde vão eles buscar o dinheiro?" A terceira, com ar de pessoa mais humilde e também mais idosa, retorquiu: "- Ai filhas! Para fezes já chegam as minhas..."
O altifalante anunciou o meu nome e exigiu a minha presença no gabinete 7.
Lá fui para mais uma compressão que terminará com o meu dia em depressão.

Júlio Silva

quinta-feira, 10 de novembro de 2011