
CRÓNICAS DO REGABOFE (10): O escriba
Conheci o Jakim faz já tanto tempo
que se me confunde nos cafundós da memória.
Quando foi também não interessa para o
caso que aqui me traz.
O que deveras importa é que
desenvolvemos uma amizade e durante anos uma constância feita de cumplicidades,
éramos o que se diz unha com carne, de tal forma que pelos cafés e tabernas de
Portalegre não poucos eram os que nos faziam de irmãos.
Agora que já sabem que conheci o rapaz
em Portalegre, saibam também que eu andaria pelo 8º ou 9º anos do então chamado
ensino unificado, resquícios da Revolução de Abril e maneirismos de forma que
não levaram a nenhuma unidade e muito menos promoveram a igualdade, antes
fizeram milagres pelo seu oposto.
O que primeiro me chamou a atenção
naquele zangalhão todo gingão e garganeiro mas com um certo ar desprotegido,
rodeado de garinas que lhe acoitavam as bocas, na sala de convívio da escola
industrial, foi a braçada de livros que todos os dias ele transportava debaixo
do braço.
Logo ali aprendi que trazer pelo menos
um livro à mão foca em nós a atenção do mulherio que se sente atraído pelo ar
intelectual que o livro confere ao seu portador.
Não sei bem como chegámos à fala, eu
sempre tímido não me devo ter atrevido a meter conversa e no meio escolar ele
era um “winner” e eu um genuíno “loser”. Deve ter
sido motivado por algum livro, objeto que também a mim já me atraía e,
normalmente, quinzenalmente requisitados na biblioteca ambulante Calouste
Gulbenkian.
Sei é que estabelecido o contacto tornámos-nos inseparáveis por amor aos
livros que líamos e trocávamos entre nós e sobre eles falávamos.
Habitualmente, eu chegava mais cedo ao
Café Facha e habituei-me a reconhecer-lhe o ticataca das botas ortopédicas a
calcorrear a calçada.
Entre dois cafés púnhamos a converseta
em dia e quando resolvíamos fazer gazeta íamos até ao Café Central, nas manhãs
gélidas de Janeiro e Fevereiro mas de céu limpo e sol, abancávamos numa janela
a dar para a rua e deleitávamo-nos com o passear das cachopas afriorentadas
enquanto nós, gatos ao sol, espreguiçávamos. Nos dias sem sol, íamos até ao
Café Alentejano onde sempre nos podíamos refastelar nos antigos bancos corridos
com ar de sofás. As tardes, essas eram certinhas, passadas no Tarro a olhar o
jardim ou quando havia disponibilidade financeira em fartas comezainas e ainda
mais bem regadas a tintol no Marchão, David ou Escondidinho.
Destas cumplicidades nasceu o momento
alto das nossas vidas de estudantes: o manifesto anti-Relvas, baseado no
original do mestre Almada, bandarilhámos com categoria um sujeito sem categoria
que fez sua vida como professor. A demonstrar o que digo, ainda hoje quando
passa por mim no Rossio, seus olhos contorcem-se num esgar de ódio, quando
lerpar que a terra lhe seja leve.
Destes tempos remonta ainda a nossa
militância política, a qual por toparmos muito bem os desígnios do PCP e melhor
ainda os dos mariquinhas pé de salsa do PS, PPD e CDS, optámos pela UDP, em
Portalegre éramos 3 os militantes, ainda assim, desabrochámos um comunicado dos
estudantes em solidariedade com os trabalhadores em greve da Finicisa, o qual
nós próprios distribuímos à porta da fábrica, o que fez com que esses trabalhadores
moralizados pelo comunicado cumprissem mais um dia de greve e nos tivessem pago
uns valentes bagaços, no seu bar de convívio.
Nesse dia fomos a formiguinha ao
contrário no carreiro mas que por breves instantes faz mudar a direção deste.
Nestes tempos, o nosso solstício de verão, apesar de estar já a viver o seu
equinócio do Outono, era a avó do Jakim que se havia de tornar avó de ambos.
Ela era a nossa conselheira na sempre
difícil passagem da adolescência à idade adulta. Contava-nos histórias
populares, aconchegava-nos os estômagos em dias de ressaca, com os seus pratos
da tradição alentejana, frugais mas apetitosos.
Mas o interesse comum era a literatura,
ler muito e tentar escrever mais. Líamos tudo o que nos vinha à mão. Filosofia,
psicanálise, política, mas acima de tudo, poesia, contos, romances, os
surrealistas portugueses, o movimento Dada e muito policial, ao contrário de
mim, o Jakim também devorava ficção científica, havia de se tornar especialista
na área.
Dos autores, recordo-me sobretudo de
Marx, Engels, Lenine, Trotsky, Che Guevara, Fidel, todos sem relevância para
nós, ao contrário de Sartre, Boris Vian, Marguerite Yourcenar, Borges, Arrabal,
todos os poetas e mais algum.
Convergíamos e divergíamos conforme o
autor ou o momento, mas penso não errar que de todos aqueles em que mais fomos
unânimes foram afinal Fernão Lopes, Gil Vicente, Bocage, Herculano, Eça, sobre
todos, Camilo, mais Camões que Pessoa e muito pouco Régio, o que em Portalegre
era quase sacrílego, e no topo da pirâmide os contos de Trindade Coelho,
Branquinho da Fonseca e lá no cimo, tal estrela brilhante o espantoso “Romance
da Raposa”, esse romance quase juvenil ou para a infância, obra fabulástica do
grande mestre Aquilino.
Ao fim e ao cabo, continuamos dois
salta-pocinhas entre as borrascas da vida, dizendo “o que disse Molero” e
falando como só “assim falava Zaratustra”.
Obras que lhe fortaleceram a imagética
literária portuguesa no qual fundou um domínio manuelino e único da língua
portuguesa que iria ao longo dos textos produzidos apurando numa linguagem e
estilo próprios e únicos na literatura portuguesa, criando o seu estilo
inconfundível de escrever e contar histórias.
A partir de determinada altura, apenas o
conseguia ir acompanhando nas leituras, pois na escrita, ele começou a escrever
cada vez mais e cada vez melhor.
Estava possesso pelo puro deleite de
escrever compulsivamente.
Foi aqui que os trilhos da vida nos
separaram fisicamente, mantendo a amizade, troca de leitura e sobretudo de
escrituras.
Ambos saímos da órbita portalegrense quase
na mesma altura, meados finais de 1989, eu para Macau recompondo a minha
carreira de professor e, sem o saber na altura, comprometer definitivamente as
aspirações literárias.
O Jakim, sem dizer nada, já na altura
estava ciente que não podemos vender a alma ao diabo, ao contrário de mim,
mudou-se para as Caldas da Rainha e por lá deu continuidade à sua verve
literária e refinou ainda mais o seu estilo e vocabulário conseguindo
sintetizar nas influências clássicas um modo de fazer, de escrever, de libertar
as suas pulsões literárias num voo livre de formas, frases e temas hodiernos,
ou mesmo, “avant le temps”.
Para as editoras, parece haver
escritores que de tão prenhes de qualidade, para elas tornam-se impublicáveis.
Com o que passa o jakim muito bem, pois com a evolução informática ele escreve
cada vez mais e com a ajuda do computador, da impressora e da fotocópia, lá vai
publicando com arrojo, satisfação e desfaçatez as suas brochuras cheias da arte
de bem escrever em toda a linha montando qualquer égua, com ou sem sela, e as
vai espalhando pelos amigos, em Portalegre e por todo o mundo, pois a escrita
do Jakim já se tornou universal.
E às editoras diz nada, ou rindo às
gargalhadas faz-lhes o gesto habitual do Zé Povinho, manda-os à fava. Ainda por
cima tem tomates, o gajo.
E ainda pode glosar: escritor, eu? Não,
isso é o José Rodrigues dos Santos. Eu não passo de simples escriba. (A frase é
minha mas ajusta-se).
De Joaquim Castanho li:
XIV Contos Disparates;
A Carta Esquecida e outros contos;
O Escriba e as Bonecas;
Expectativa e outros milagres;
Euclasia (poemas)
E poemas, muitos poemas, sendo que em
minha opinião o Jakim é um excelente prosador mas um poeta que apenas consegue
esse nível em poemas raros, nos demais é apenas aceitável, mas esta é a minha
opinião.
Jaime Crespo
às 23:12
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um muito obrigado e bem haja, ao meu amigo Mário Mendes, em Nisa que neste
seu blogue vem desenvolvendo um trabalho notável na defesa e divulgação dos
valores, tradições e cultura no e do concelho de Nisa.
um abraço ao sempre eterno amigo Joaquim Castanho que de Portalegre vai
espalhando a toda a parte o seu engenho e arte no crescimento do corpus
literário português e na divulgação das artes em Portalegre, bem como a sua
militância na defesa do ambiente.
o texto, entretanto já com algumas alterações mantém aqui, no original, a
sua pureza e liquidez crítica à obra do Joaquim, bem como sentida homenagem à
nossa irmandade.
jaime crespo
jaime crespo